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crônica · 7 min de leitura

O que a inteligência artificial me lembra dos anos 80

Toda geração acredita viver a transformação definitiva, e até agora todas tiveram concorrência.

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Julio Cezar Neves

Um robô branco, recostado na cadeira com os pés de tênis apoiados na mesa, segura uma caneca com uma carinha sorridente. À sua frente, um computador bege dos anos 80 com tela de fósforo verde, teclado antigo, formulário contínuo e bilhetes colados no monitor. Ao fundo, um monitor moderno mostra código.

A inteligência artificial me lembra muito os anos 80, e a lembrança vem do comportamento humano diante de uma transformação importante. Passei tempo suficiente na tecnologia para desenvolver uma desconfiança saudável de toda novidade apresentada como inevitável. Essa desconfiança convive bem com o entusiasmo e se alimenta apenas de experiência acumulada. Depois de algumas décadas, a gente aprende que previsões envelhecem mais depressa que equipamentos.

Acompanho o avanço da IA com enorme interesse. Uso as ferramentas e estudo o que elas fazem bem, de olho também nos tropeços, para entender o impacto que terão no trabalho e na educação. É um momento fascinante para quem gosta de tecnologia, e também um momento que acorda lembranças antigas. Algumas delas ainda têm cheiro de disquete.

Nos anos 80, os computadores pessoais começaram a ocupar as mesas de escritório. As empresas investiam em informatização e os fabricantes anunciavam uma nova era, enquanto as revistas especializadas publicavam previsões ousadas sobre o futuro do trabalho. A tecnologia era real, e as promessas também eram. A proporção entre as duas variava bastante, e raramente a favor da tecnologia.

A conversa daquela época incluía temas que hoje voltam com roupa nova. Falava-se em reserva de mercado e em dependência de fornecedores estrangeiros. Algumas expressões sumiram dos jornais, e outras apenas trocaram de vocabulário. Quando acompanho as discussões atuais sobre grandes plataformas globais e soberania digital, tenho a impressão de reencontrar perguntas antigas com terminologia atualizada.

Lembro de apresentações que descreviam certas ferramentas como solução definitiva para problemas que ainda nem tinham sido formulados direito. A indústria sempre teve grande talento para resolver questões futuras, e o usuário chegava trazendo problemas presentes. A conversa entre os dois acontecia em idiomas diferentes, com tradução simultânea feita pelo departamento de vendas.

Hoje vejo um fenômeno parecido em torno da IA. Os avanços são impressionantes, e tarefas que levavam horas agora cabem em minutos. Ferramentas capazes de produzir texto e código ficaram acessíveis para milhões de pessoas, e a empolgação que as acompanha é tão real quanto elas. Toda transformação tecnológica produz um efeito colateral que aprendi a observar com atenção.

Quem descobriu o assunto recentemente começa a explicar o futuro com enorme convicção. Aconteceu com os computadores pessoais nos anos 80 e voltou a acontecer a cada onda seguinte, com a regularidade de um cron. A tecnologia muda depressa, e a velocidade com que surgem especialistas costuma ser ainda maior. Há quem tenha virado autoridade em IA no intervalo entre dois feriados.

Nos anos 80 ouvi previsões sobre o desaparecimento de profissões inteiras. Algumas se transformaram profundamente, e outras simplesmente ignoraram as previsões e seguiram trabalhando. A realidade tem uma tendência irritante de colaborar só em parte com os especialistas. Hoje as previsões voltaram, anunciando carreiras com os dias contados e um futuro em que humanos apenas supervisionam máquinas, e a história recomenda cautela, porque o comportamento humano segue um cronograma próprio.

Naquela época, muitas empresas compraram computadores sem saber exatamente o que fariam com eles. A lógica era simples: todo mundo estava comprando, e comprar também parecia uma estratégia razoável. Um computador sem processo produzia versões eletrônicas da desorganização existente, agora impressas em formulário contínuo e arquivadas em pastas suspensas.

Algumas organizações repetem a experiência com a inteligência artificial. Contratam plataformas e anunciam iniciativas ambiciosas, e depois descobrem que problema mal definido continua produzindo resultado mal definido. A IA trabalha com enorme velocidade, e a confusão acompanha o ritmo com a maior facilidade. Talvez essa seja a semelhança mais forte entre os dois períodos.

A tecnologia chega carregada de potencial e encontra processos e hábitos construídos ao longo de décadas, e esse encontro raramente é simples. O computador deixou intactos os problemas de gestão, e a planilha conviveu muito bem com o planejamento ruim. A inteligência artificial também tem limites bastante humanos, a começar pelos humanos que a usam.

Outro ponto que me leva de volta aos anos 80 é a distância entre usar uma tecnologia e compreendê-la. Muita gente decorava comandos sem entender os conceitos por trás deles. Funcionava por um tempo, até surgir uma situação nova e o conhecimento superficial mostrar o tamanho que tinha. Hoje vejo gente obtendo resultados excelentes com IA e gente repetindo prompts prontos sem saber validar a resposta. A ferramenta responde, e o raciocínio continua sendo responsabilidade de quem pergunta.

Existe, porém, uma diferença importante entre a IA e as revoluções anteriores. O computador dos anos 80 exigia aprendizado explícito, com estudo e muito erro pelo caminho. A inteligência artificial entrega resultados úteis antes que muita gente entenda o que acontece por trás da tela. Essa facilidade amplia as oportunidades e amplia as ilusões na mesma proporção, porque a sensação de domínio costuma chegar bem antes do domínio.

Durante boa parte da minha carreira, aprender significava procurar em livros e manuais, ou em pessoas que sabiam mais que nós. Hoje, muitas vezes, aprender significa perguntar. Parece uma diferença pequena, e suspeito que seja uma mudança bem maior do que aparenta. Procurar obrigava a construir parte do caminho, e perguntar encurta a viagem, mas a compreensão continua cobrando o mesmo esforço de sempre. Essa parte atravessou todas as revoluções que testemunhei.

A discussão sobre produtividade também tem cara de reprise. Nos anos 80 acreditava-se que os computadores aumentariam dramaticamente a eficiência das empresas, e em muitos casos aumentaram mesmo. Em outros, apenas aceleramos atividades que jamais deveriam existir. A velocidade ampliou todos os resultados, os bons e os outros, com uma imparcialidade exemplar.

A inteligência artificial está entrando pelo mesmo caminho. Empresas com processos bem estruturados colhem benefícios depressa, e ambientes desorganizados conseguem produzir versões mais sofisticadas da própria desorganização. Aprendi que ferramenta costuma amplificar o comportamento que já existe. Uma equipe problemática encontra maneiras criativas de continuar problemática com recursos modernos, e a natureza humana demonstra uma resistência impressionante à substituição.

Quando conheci o Unix, o que mais me impressionou foi a capacidade de combinar ferramentas simples para resolver problemas complexos. Havia elegância naquela filosofia e havia uma lição junto: compreender os componentes importava tanto quanto usá-los. Um pipe só funciona bem nas mãos de quem sabe o que cada comando faz com a saída do anterior. A IA me provoca uma sensação parecida, agora numa escala que pareceria ficção científica quando comecei.

A principal lição que os anos 80 me deixaram é que tecnologias mudam mercados e transformam profissões, enquanto algumas competências mantêm o valor qualquer que seja a ferramenta da vez. A capacidade de aprender caminha junto com a de formular boas perguntas. A de analisar um problema depende da disposição para trabalhar com outras pessoas. Essas habilidades atravessaram mainframes e microcomputadores e seguem atravessando a inteligência artificial sem pedir licença.

A automação continua sendo uma aliada poderosa, e automação sem entendimento apenas produz resultados errados mais depressa. Quem faz à mão o que um script faria está ensaiando o erro para a próxima apresentação, e quem automatiza sem entender está apenas acelerando o ensaio. A velocidade impressiona bastante. O estrago, quando vem, impressiona mais.

Como sempre escrevo, problema técnico dispensa aviso e vai direto à prova. A inteligência artificial também está aplicando a sua, e a matéria é a nossa capacidade de separar possibilidades reais de expectativas exageradas. A adaptação conta pontos, e o discernimento conta mais. A prova tem consulta liberada, o que torna as notas baixas ainda mais constrangedoras.

Depois de quase seis décadas convivendo com tecnologia, sigo otimista. Vi ferramentas desaparecerem e conceitos ressurgirem com nomes novos, ao lado de previsões brilhantes e de outras constrangedoras. A inteligência artificial me parece uma evolução importante e legítima. Toda geração acredita viver a transformação definitiva, e até agora todas tiveram concorrência.

Ela também me parece uma excelente oportunidade para exercitar uma virtude antiga, a calma. Os anos 80 me ensinaram que toda grande transformação tecnológica chega em duas ondas, a primeira feita de expectativas e a segunda feita de realidade. As duas são necessárias. Elas apenas costumam chegar em horários diferentes, e a segunda sempre traz a conta da primeira.

PS: Quero ouvir a sua opinião. Conte nos comentários se a inteligência artificial lembra alguma transformação tecnológica que você viveu, seja a chegada da internet ou a do smartphone, e compartilhe com quem anda explicando o futuro com convicção demais. A história da tecnologia repete muitas perguntas e troca as siglas de tempos em tempos, só para ninguém perceber que é reprise.

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