O melhor conselho profissional que recebi
O crime acontecia na reunião, e o corpo aparecia no código.
$ whoami
Julio Cezar Neves
O melhor conselho profissional que recebi tratava de pessoas, e passei anos esperando que ele viesse de alguém cercado de computadores. A expectativa parecia lógica. Eu trabalhava com sistemas e terminais, e com uma quantidade razoável de problemas que chegavam com a discrição de um elefante entrando pela janela. Fazia sentido imaginar que a grande frase da minha carreira teria relação com Unix ou com Shell Script.
A realidade raramente consulta as nossas preferências e seguiu por outro caminho. O conselho chegou numa conversa simples, sem quadro branco e sem a menor intenção de parecer histórico. Os conselhos importantes têm essa mania desagradável de chegar vestidos de comentário comum. O valor deles aparece muitos anos depois, quando quem deu o conselho já nem lembra de ter dado.
Naquela época eu estava convencido de que competência técnica resolvia quase tudo. Estudar muito e entender o sistema a fundo pareciam ingredientes suficientes para uma carreira sólida. Era uma visão confortável para quem preferia conversar com máquinas a enfrentar certas reuniões. As máquinas tinham a gentileza de executar exatamente o que recebiam, e as pessoas acrescentavam interpretação, o que costumava dar início à aventura.
Foi nesse contexto que um profissional mais experiente me disse uma frase que ficou comigo: "Julio, computadores são difíceis. Pessoas são mais." Na hora achei a observação simpática, talvez um exagero de quem já tinha acumulado reuniões demais. Com o tempo descobri que ela era praticamente a especificação técnica da vida profissional. Computadores obedecem a regras, e pessoas negociam sentidos, com humor e pressão incluídos no pacote.
Por muitos anos achei que os grandes problemas da área moravam nos sistemas. Depois percebi que muitos sistemas apenas herdavam problemas nascidos antes, em conversas mal feitas e em pedidos formulados com a precisão típica de quem quer tudo para ontem com orçamento de anteontem. O software era o lugar onde a confusão ficava registrada. O crime acontecia na reunião, e o corpo aparecia no código.
Essa descoberta mudou minha forma de trabalhar. Passei a ouvir melhor antes de responder e a perguntar sobre o problema real antes de aceitar a primeira descrição. Em tecnologia, a primeira explicação costuma ser uma pista e raramente é o caso inteiro. Quem trata pista como sentença constrói sistemas obedientes até demais, com utilidade sob consulta.
Vi projetos emperrarem por razões que compilador algum conseguiria apontar. A equipe técnica entendia uma coisa e o cliente esperava outra, enquanto o usuário final descobria, tarde demais, que ninguém tinha perguntado como o trabalho acontecia de verdade. Depois alguém declarava que o sistema deixou de atender. O sistema, coitado, apenas executou a confusão com disciplina exemplar.
Esse conselho também me ensinou que explicar bem faz parte do trabalho técnico. Muita gente ainda trata comunicação como habilidade decorativa, coisa de quem gosta de falar em público. Na prática, comunicação é infraestrutura. Uma ideia técnica que ninguém entende vira enfeite caro, e uma solução que ninguém consegue manter vira monumento à vaidade de quem a escreveu.
Conheci profissionais brilhantes que sabiam tudo sobre uma tecnologia e quase nada sobre como compartilhar esse conhecimento sem provocar sofrimento coletivo. Alguns escreviam código sofisticado e deixavam rastros tão indecifráveis que a manutenção virava escavação arqueológica. O mercado às vezes chama isso de genialidade. Depois de alguns sustos, passei a chamar de risco operacional com boa autoestima.
Também conheci profissionais menos vistosos que produziam resultados extraordinários porque entendiam o ambiente. Perguntavam melhor e percebiam onde o problema realmente estava, e muitas vezes eram essas pessoas que salvavam os projetos. A tecnologia adora premiar quem entende máquinas. As empresas sobrevivem graças a quem entende gente, embora raramente coloquem isso no organograma.
Ao longo das décadas, vi os mainframes darem lugar aos microcomputadores e a nuvem chegar com discurso de transformação, como cada onda anterior. Cada ciclo trouxe avanços reais e novas formas de produzir problemas antigos com ferramentas modernas. A tecnologia adora trocar de roupa e voltar dizendo que nasceu ontem. As pessoas, por sua vez, levam os mesmos hábitos para dentro de cada novidade, com a fidelidade de quem muda de casa e leva a bagunça junto.
O conselho ficou ainda mais importante quando comecei a ensinar. Na sala de aula percebi depressa que explicar um comando é a parte simples. O desafio é entender por que cada pessoa enxerga aquele comando de um jeito diferente. Há quem tenha medo de errar, e há quem aperte Enter com uma confiança que deveria exigir licença especial.
Problemas técnicos aplicam provas, e na sala de aula a prova vale tanto para quem estuda quanto para quem ensina. Uma pergunta aparentemente básica pode revelar o ponto fraco da explicação. Quem ensina e se irrita com a pergunta perde a chance preciosa de descobrir onde o raciocínio ficou do lado de cá da ponte. Conhecimento guardado serve de troféu, e conhecimento compartilhado serve de ferramenta.
O aprendizado vale também para a automação. Fazer à mão o que um script faria é repetir o erro com assiduidade, e automatizar sem entender o processo apenas transforma a bagunça em rotina. Já vi empresas orgulhosas de automatizar etapas que jamais deveriam existir. A máquina executava tudo com velocidade, e o problema ganhou a mesma velocidade, numa eficiência que fica bonita no relatório e cobra juros na operação.
O melhor conselho que recebi me aproximou da técnica. Ele me ajudou a perceber que a técnica produz valor quando encontra o problema certo, explicado por pessoas reais em ambientes reais. Computadores são difíceis porque exigem precisão, e pessoas são difíceis porque exigem compreensão. Quem trabalha com tecnologia e despreza uma dessas partes passa a carreira inteira tropeçando na outra.
Depois de quase seis décadas, sigo estudando ferramentas e aprendendo tecnologias novas, porque isso faz parte do ofício. Continuo convencido de que uma carreira longa em tecnologia depende também da capacidade de ouvir com atenção e de desconfiar educadamente da primeira resposta. A educação, nesse caso, é opcional para o problema. Para quem trabalha, ela costuma ajudar bastante.
Computadores ficaram menores e mais rápidos, e as promessas mudaram de embalagem diversas vezes. O conselho continua de pé. Computadores são difíceis, pessoas são mais, e quase todos os grandes sistemas seguem dependendo das duas coisas para funcionar. Os sistemas que esqueceram a segunda costumam lembrar dela no dia da implantação.
PS: Agora quero saber de você. Conte nos comentários qual foi o melhor conselho profissional que recebeu, aquele que parecia uma frase comum e foi ficando mais inteligente com os anos, e compartilhe o texto com quem ainda acha que a parte difícil é o computador. Alguns conselhos envelhecem melhor que certas tecnologias lançadas com orçamento milionário. Essas costumam chegar com prazo de validade constrangedor e manual de migração já incluído.
$ tee # compartilhe este artigo WhatsApp Telegram LinkedIn
$ cat comentarios.log
lendo o log…