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inglês para TI · 11 min de leitura

A palavra que você só leu e nunca ouviu

A primeira letra fala e as outras quatro esperam a vez, em fila, com a paciência que o próprio nome recomenda.

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Rubens Queiroz de Almeida

Numa sala de reunião, um homem de meia-idade, careca, de bigode farto e camisa social suada, faz careta e desenha com os dedos uma caixinha imaginária no ar, evitando dizer uma palavra. No telão atrás dele, quatro colegas estrangeiros em videochamada tentam adivinhar a charada com expressão confusa. Ao lado, uma jovem de cabelo curto azul, vestida de juíza de futebol, sopra um apito e ergue um cartão amarelo para ele.

Existe um teste rápido para descobrir há quanto tempo uma pessoa trabalha com informática no Brasil, e ele dispensa currículo e prova prática. Basta pedir que ela leia em voz alta a palavra "cache". O recém-chegado costuma dizer "cachê", como se o servidor fosse um artista cobrando para animar festa de aniversário. O veterano diz "kéch", igualzinho ao "cash" do dinheiro, e logo depois olha em volta para conferir se alguém vai discordar, porque também ele passou anos usando uma versão inventada e rezando para jamais precisar dizê-la diante de um americano.

A explicação é simples e um pouco melancólica. O profissional de TI aprende inglês com os olhos. Passa anos lendo documentação e mensagem de erro, quase sempre sozinho diante da tela, e monta um vocabulário enorme que só conhece por escrito. Cada palavra entra na cabeça com a pronúncia que o leitor imaginou na primeira vez, e essa pronúncia fica ali, sem contestação, até o dia da primeira reunião internacional. Pois é. A palavra que você só leu tem a voz que você deu a ela, e você raramente desconfia dessa voz.

Passei boa parte das minhas mais de três décadas ensinando inglês ouvindo essas vozes inventadas, e confesso que guardo carinho por várias delas. Elas revelam um aluno que leu muito, o que já é uma boa vantagem. O problema aparece quando a pronúncia de estimação sai de casa e encontra outra pessoa. A conversa então trava num ponto alheio ao conhecimento técnico, porque o colega estrangeiro ouve uma palavra com a força na sílaba errada e leva alguns segundos para descobrir que se trata do banco de dados que ele mesmo administra.

Algumas palavras chegam ao Brasil com a briga já instalada, e "sudo" é a mais famosa delas. O nome junta o "su", o velho comando de trocar de usuário, ao verbo "do", e por isso muita gente lê "su-dú", respeitando a origem. Outra parte da humanidade lê "súdo", como se o comando fosse parente de "pseudo". As duas versões circulam em reuniões e vídeos de todo canto, e o comando, convenhamos, obedece com a mesma disciplina a quem pronuncia de um jeito e a quem pronuncia de outro. Ele só faz questão da senha.

Outras siglas ganharam apelido de verdade. A interface gráfica, a GUI, é chamada de "gúi" por muita gente que fala inglês, e a palavra soa exatamente como "gooey", que quer dizer pegajoso, grudento. Quem descobre isso passa a olhar para certas telas de configuração com outros olhos, e com razão. O SQL vive dividido entre quem soletra as letras uma a uma e quem diz "síquel", e os dois grupos costumam desconfiar um pouco do outro, como torcedores de times rivais que dividem o mesmo elevador.

O inglês, aliás, tem um talento especial para escrever letras que ninguém pronuncia. A palavra "queue", fila, é o caso mais engraçado que conheço. Ela tem cinco letras e soa como "kiú", ou seja, a primeira letra fala e as outras quatro esperam a vez, em fila, com a paciência que o próprio nome recomenda. Quem trabalha com filas de mensagens escreve essa palavra o tempo todo e às vezes descobre a pronúncia só depois de anos, num vídeo qualquer, com o susto de quem percebe que errava o nome do vizinho desde a mudança. Acredite. O vizinho, educado, nunca reclamou.

As palavras de origem grega rendem sustos parecidos. "Schema" se pronuncia "skíma", com som de K, enquanto o brasileiro, fiel ao português, insiste em transformar o "ch" em "x". O "daemon", o processo que roda em segundo plano, se lê "dímon", igualzinho ao "demon" dos filmes de terror, o que explica muita coisa sobre o comportamento de certos serviços às sextas-feiras. Imagino que o primeiro administrador de sistemas a notar a semelhança tenha ficado bem menos surpreso do que deveria.

Existe, porém, um detalhe que pesa mais que qualquer letra muda, e ele raramente aparece nas listas de pronúncia que circulam pela internet. Trata-se da sílaba tônica. Pelo que vejo em sala de aula, o ouvido de quem fala inglês se guia muito mais pela batida da palavra do que pelas vogais. Um "developer" pronunciado com força no "vel", como manda o dicionário, sobrevive a vogais bem tortas e chega inteiro ao colega. O mesmo "developer" com a força deslocada para o final, à moda do português, pode ter as vogais impecáveis e ainda assim provocar uma ruga de concentração na testa de quem escuta.

Se você parar para pensar, isso é uma ótima notícia. Dá para ser entendido com a mesma boca de sempre, desde que o peso de cada palavra caia no lugar certo, e aí o sotaque brasileiro, com todas as suas vogais abertas, passa a funcionar muito bem. Há palavras que mudam até de função conforme a sílaba forte. "Object" com força no começo é o objeto, o substantivo que todo programador conhece de sobra, e com força no final vira o verbo objetar, aquilo que o colega faz quando discorda da sua proposta na revisão de código.

E há o Linux, claro. No Brasil convivem "línucs" e "láinucs", cada um com seus defensores fervorosos e argumentos de almanaque. Os falantes de inglês também divergem entre si, e a discussão já consumiu horas de fórum que poderiam ter sido usadas para corrigir algum defeito do próprio sistema. O núcleo, em todo caso, segue rodando em servidores do mundo inteiro sem saber como se chama, e ninguém relata perda de desempenho por causa disso.

Toda equipe, aliás, tem o seu fiscal de pronúncia. É aquele colega que passou seis meses de intercâmbio fora do país e aproveita cada reunião para repetir em voz alta, com ênfase didática, a palavra que alguém acabou de dizer do jeito brasileiro. O fiscal acredita prestar um serviço público. Na prática, consegue apenas que o colega corrigido passe a evitar a palavra para sempre, exatamente o contrário do que pretendia. Quem quer ajudar de verdade repete o termo certo dentro da própria frase, sem holofote nem pausa dramática, e deixa que o ouvido do outro termine o trabalho por conta própria.

O que mais me interessa nessas histórias é o medo que a pronúncia provoca. Conheço profissionais excelentes que reorganizam frases inteiras, ao vivo, numa reunião em inglês, só para escapar de uma palavra cuja pronúncia desconhecem. Em vez de dizer "cache", dizem "the temporary storage thing", e trocam "schema" por "the structure of the database", com uma criatividade que faria inveja a qualquer poeta. A manobra funciona e cobra caro. A frase fica tão comprida que o raciocínio perde o fio, e o colega estrangeiro sai da reunião achando que o brasileiro conhece pouco o assunto, quando a verdade é exatamente a contrária.

Convenhamos, é uma ironia daquelas que dariam crônica. A pessoa domina o conceito a ponto de explicá-lo com outras palavras e parece despreparada justamente por isso. O conhecimento estava todo ali, completo, e ficou escondido atrás de uma única sílaba que ela preferiu evitar. Quem dá aula de inglês há bastante tempo vê essa cena se repetir com uma frequência que entristece um pouco e diverte outro tanto.

Há um território ainda mais traiçoeiro, que costuma pegar desprevenido até quem pronuncia bem as palavras inteiras. É o momento de soletrar. Numa chamada de suporte, alguém pede o nome do servidor, e o brasileiro começa a ditar as letras com a confiança de quem aprendeu o alfabeto na escola. Acontece que o "e" do inglês soa como o nosso "i", e o "i" deles soa como "ai". O nome da máquina chega do outro lado embaralhado, e os dois passam cinco minutos tentando acessar um servidor que existe apenas na combinação das duas confusões.

O "g" e o "j" completam a armadilha das letras, porque trocaram de som entre si quando atravessaram o oceano. O "g" deles soa como "dji", e o "j" soa como "djei", o que transforma qualquer senha provisória ditada por telefone numa pequena aventura. Os símbolos cobram outro pedágio. O ponto vira "dot" num endereço e a barra vira "slash" num caminho de arquivo, e quem dita um caminho comprido sem conhecer esses nomes acaba descrevendo o desenho de cada sinal, como quem ensina caligrafia pelo telefone. Aliás, é certeza: o colega do outro lado vai anotar errado pelo menos uma vez, e vai culpar a ligação.

A boa notícia é que o remédio ficou fácil e barato. Os dicionários on-line trazem o áudio de cada palavra, em mais de um sotaque, e as palestras técnicas gravadas em vídeo mostram gente da área dizendo "Kubernetes" com a naturalidade de quem pede pão na padaria. Alguns nomes, inclusive, já nascem com instrução de uso. O nginx, por exemplo, é lido "engine x" pelos próprios autores, coisa que muita gente descobre depois de anos chamando o servidor de "en-gin-ks".

Proponho um exercício que cabe numa tarde e diverte mais do que parece. Anote as palavras técnicas que você usa todo dia e jamais ouviu alguém dizer em voz alta. Depois, palavra por palavra, ouça o áudio no dicionário até a sua boca concordar com ele, de preferência sozinho, para poupar os colegas do espetáculo. A lista costuma revelar surpresas nos lugares mais familiares. Quem escreve "height" toda semana, ao montar uma página, raramente desconfia que a palavra rima com "white" e passa longe do "eight" que a grafia sugere.

A inteligência artificial também entrou nessa conversa, e agora com voz. Os assistentes leem em voz alta qualquer termo que o usuário digitar, quantas vezes ele pedir, sem perder a paciência e sem rir da pergunta. É um professor de pronúncia disponível a qualquer hora, e o risco que ele traz é bem específico. A pessoa ouve a máquina dizer "queue" com perfeição e, satisfeita, continua evitando a palavra em público, agora com a consciência tranquila de quem já sabe como se diz. O assistente cumpriu a parte dele com louvor. A outra parte, a de abrir a boca na frente de gente de verdade, continua esperando na agenda, sempre remarcada para a semana seguinte.

Vale lembrar que os próprios falantes nativos tropeçam nessas palavras com uma frequência reconfortante. Americanos discutem a pronúncia de "data" há gerações, cada região defendendo a sua com o fervor reservado às receitas de família. O inglês britânico manda "router" rimar com "shooter", e o americano prefere que a palavra rime com "outer". Os dois lados se entendem muito bem, e a internet segue funcionando, roteada por equipamentos que dispensam qualquer opinião sobre o próprio nome.

A meta que vale a pena perseguir, portanto, é a pronúncia reconhecível, aquela que o colega entende de primeira e sem ruga na testa, já que a pronúncia perfeita nem os nativos conseguem combinar entre si. Com a sílaba tônica no lugar e as letras mudas devidamente aposentadas, o sotaque brasileiro passa a funcionar como o sobrenome, que acompanha a pessoa aonde ela for. Ninguém pede desculpas pelo sobrenome numa reunião, e ninguém deveria pedir pelo sotaque.

Tenho para mim que uma pronúncia errada dita em voz alta ensina mais que dez pronúncias certas guardadas na cabeça. A palavra dita na reunião recebe correção, às vezes explícita e quase sempre disfarçada, quando o colega repete o termo do jeito certo na frase seguinte. Essa correção discreta vale como aula particular gratuita e chega embrulhada na própria conversa. A palavra guardada na cabeça, por sua vez, envelhece com a mesma voz inventada do primeiro dia, à espera de uma ocasião que a própria pessoa trata de adiar.

A palavra "queue" continua lá, com suas quatro letras enfileiradas atrás do Q, aguardando uma vez que jamais vai chegar, e eu confesso certa simpatia por elas. Quem passou anos lendo inglês diante da tela carrega uma fila parecida, de palavras conhecidas e nunca ditas, à espera de autorização para sair. Essa fila, felizmente, anda. Basta chamar a primeira da lista em voz alta, numa reunião qualquer, e descobrir que o colega do outro lado nem levanta os olhos da tela, seja qual for o nome que você deu ao cache dele.

PS: Qual palavra técnica viveu anos na sua cabeça com uma voz inventada até alguém dizê-la em voz alta na sua frente? Deixe a confissão nos comentários e mande o texto para o colega que ainda chama o cache de cachê. Ele talvez reclame, e já será um progresso se reclamar dizendo "kéch".

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